Faculdade Murialdo

A importância de se aprender uma segunda língua desde a infância

“A criança bilíngue se adapta melhor a mudanças de ambiente.”

“O papel da escola e do professor bilíngue é ir além da alfabetização e proporcionar situações onde o aluno possa explorar as diferentes formas de uso das duas línguas.”

“A aprendizagem de uma segunda língua retarda o aparecimento de doenças cognitivas.”

 

O bilíngue é um tema cada vez mais aprofundado no campo da educação. Sabe-se que o quadro ideal na educação bilíngue é o de alfabetizar num contexto de biletramento, pois a criança exposta a duas línguas é estimulada a compreender o funcionamento dessas línguas como instrumento social, conhecendo suas características e especificidades desde cedo. Estudos comprovam que a infância é o período máximo de aprendizado, por meio da experimentação do novo, consequência da maior plasticidade do cérebro da criança.

A professora Drª Luciana Santos Pinheiro - doutora em Letras com foco em multilinguismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestre em Letras com foco em bilinguismo e política linguística pela Universidade de Caxias do Sul (UCS), especialista em Estudos Avançados da Língua Inglesa pela Pontifícia Universidade Católica (PUCRS), autora de livros didáticos e consultora pedagógica -, fala sobre a importância e as vantagens do bilinguismo. 

 

FAMUR: A infância é a melhor época para aprender uma segunda língua. Por quê? 

Profª Luciana: Existem muitos mitos sobre qual é a melhor idade para se aprender uma segunda língua. Porém, há diversos estudos comprovando que o período máximo de aprendizado se dá na infância, por meio da experimentação do novo, consequência da maior plasticidade do cérebro da criança. Outro fato comprovado é o maior número de conexões cerebrais registradas nessa fase, com o uso frequente de uma segunda língua. Por isso é tão importante aproveitar a infância para proporcionar o máximo de exposição e interação com a outra língua.

 

 

FAMUR: Que outras vantagens existem na educação bilíngue desde cedo?

Profª Luciana: A pronúncia das palavras na segunda língua que utilizam diferentes movimentos articulatórios, como no caso do fonema ‘th’ que tem um som difícil de ser pronunciado por adultos brasileiros. As crianças as produzem com maior facilidade, pois exercitam esse movimento da articulação oral desde cedo.

 

Além do incremento das habilidades cognitivas, a criança bilíngue se adapta melhor a mudanças de ambiente e, com isso, desenvolve uma visão de mundo mais ampla, aguçando sua apreciação e sensibilidade intercultural. Outra vantagem é o aumento de sua habilidade para aprender outras línguas, consequentemente, possibilitando maior competitividade no mercado futuro e global.

 

 

Resumindo, o indivíduo bilíngue, em geral, consegue avaliar situações sob diferentes perspectivas; tem melhor capacidade de abstração; tem maior empatia com relação à diversidade cultural e linguística; tem as habilidades sociais e de comunicação mais desenvolvidas; e, a longo prazo, possibilita um maior desenvolvimento da própria língua materna. Esse tem as funções executivas mais desenvolvidas; tem consciência metalinguística mais aguçada. E, finalmente, a longo prazo, a aprendizagem de uma segunda língua retarda o aparecimento de doenças cognitivas, tais como, o Alzheimer.

 

FAMUR: Como funciona a alfabetização em uma escola com programa bilíngue?

Profª Luciana: Como não há uma legislação ou regra quanto a esse tema, cada escola decide o “melhor” momento para dar início a esse processo. Particularmente, gosto da relação que a Magda Soares faz entre alfabetização e letramento em seu livro Letramento: um tema em três gêneros. O alfabetizar e o letrar são duas ações distintas, mas não inseparáveis, onde o ideal seria a busca pelo alfabetizar letrando, que é o ler e escrever em contexto das práticas sociais da leitura e da escrita, de modo que o indivíduo se torne ao mesmo tempo, alfabetizado e letrado.

Portanto, o quadro ideal na educação bilíngue seria o de alfabetizar num contexto de biletramento, pois a criança exposta a duas línguas é estimulada a compreender o funcionamento dessas línguas como instrumento social, conhecendo suas características e especificidades desde cedo. A criança passa a identificar cada língua com sua comunidade de origem, compreendendo suas relações e usos sociais. Assim, o papel da escola e do professor bilíngue é ir além da alfabetização e proporcionar situações onde o aluno possa explorar as diferentes formas de uso das duas línguas.

 

 

FAMUR: Quais os cuidados que a escola deve tomar cuidado na hora de trabalhar os dois idiomas com as crianças?

Profª Luciana: Podemos iniciar com a definição e clareza da metodologia aplicada pela escola/programa. Ela tem que oportunizar situações de imersão e ter uma equipe de profissionais altamente qualificados para a função. Não adianta conhecer apenas a língua e não saber aplicar seus conceitos e diferentes abordagens no ensino bilíngue. A capacitação dos profissionais é ponto fundamental no sucesso do programa bilíngue.

Devemos dar atenção a caracterização da escola ou ambientes escolares que venham a permitir uma imersão na segunda língua. Outro fator importante é a escolha adequada de materiais didáticos que possibilitem o uso da língua no processo de aprendizagem, e não apenas o ensino da língua pela língua. Esse material tem que oportunizar a pesquisa, a descoberta, a realização e o conhecimento de diversas áreas do saber por meio da segunda língua. É importante também, trazer situações culturais da língua e incorporar festividades em seu calendário acadêmico, sem deixar de fora as festividades da nossa própria cultura.

 

FAMUR: Se a família do aluno não souber falar o outro idioma, isso dificulta o aprendizado da criança? Explique.

Profª Luciana: Gosto de lembrar os pais que não há barreiras para o ensino/aprendizagem de uma segunda língua. Muito menos o fato da família não ter domínio sobre outro idioma não interfere no sucesso da criança. Os familiares podem ajudar da seguinte maneira:

- oriente a criança a organizar um tempo para praticar - ouvir, assistir, cantar, brincar;

- observe e utilize os recursos que ele(a) trazem para casa - bingo, memória, jogos, colorir com números, livros, músicas, etc., brinquem com eles, aprendam juntos;

- coloque à disposição da criança DVDs, livros e músicas – condizentes com a idade e nível da criança;

- propicie a continuidade do processo de aprendizagem da segunda língua;

- sempre que tiver dúvidas, peça auxílio à coordenação da escola;

- e, acima de tudo, respeite cada estágio do processo de aprendizagem.

 

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